Camilla, a executiva dos jogos
Camilla, a jogadora
Tóquio, Japão, madrugada de 3/08/2010
- Gabryella, ouviu alguma coisa? – Satoshi Hitokaze pensava ter ouvido um alto barulho, vindo do lado de fora de sua casa.
- Sim, eu ouvi.
- Melhor irmos ver o que é. – Satoshi costumava manter a pulga atrás da orelha.
- Sim, mas não se esqueça de ir armado, nunca se sabe.
- Você sabe que eu nunca esqueço. – Satoshi acendeu o abajur e abriu uma gaveta do lado da cama, tirando uma pequena pistola e se levantando, com ela apontada para a porta. Ele ouviu um barulho ainda mais forte, como se uma porta fosse derrubada.
- Gabryella, fique parada, vou ver o que está acontecendo. – Satoshi correu para sala, viu um vulto e deu um tiro, que acertou a cabeça de quem se escondia. Alguém estava na entrada aberta da casa, Satoshi atirou mas não acertou, um tiro entrou pela janela e acertou a cabeça de Satoshi, que caiu morto.
Uma garota de baixo porte desceu as escada, com um estilete na mão, mas quando chegou no andar de baixo, viu o pai morto. Os gritos da garota fizeram com que Gabryella saísse da cama, encontrando um bandido e o marido morto, fazendo com que as duas compartilhassem gritos de desespero.
Tóquio, Japão, 2/6/1995
- Pai, eu vim aqui te fazer a última proposta.
- Miyo, o que você pensa que está fazendo? A DesuGames é a obra de uma vida inteira de trabalho, por que você quer destruí-la?
- Pai, você devia saber que alguém com nosso sangue não aceita viver na sombra de outra pessoa, e como eu sou muito mais capaz que você, nada mais justo que tomar a empresa de você.
- Myio, você vai me pagar por isso.
- Sim, eu irei. A ações da DesuGames caíram absurdamente, e essa empresa está praticamente falida. depois que criei o sistema de jogos interativos por toque e vendi meus vídeo-games por metade do preço dos seus, mesmo tendo a mesma qualidade, as vendas desse grupinho fraco caíram em quase 100 por cento, vocês contraíram dívidas, e não conseguem nem mesmo pagar os próprios funcionários. Tudo que você precisa pra se salvar, é vender essa empresa pra mim, ela póderá se fundir a Hitonomi, nós contrairemos suas dívidas e você poderá continuar sua vida.
- Então eu venderei, quanto você pretende pagar?
- Ora, o preço justo, eu pago as dívidas da empresa e ela fica nas minhas mãos.
- Como assim? Eu não embolso nada?
- Presta atenção, essa empresa já tem 700 milhões em dívidas, se eu gastar tudo isso e ainda tiver que gastar mais, vou ter um prejuízo tremendo. A Hitonomi surgiu quando eu e alguns investidores juntamos dinheiro e compramos alguns equipamentos. Trabalhamos dia e noite para desenvolver games, alguns que eu já havia feito durante minha adolescência, mas nunca lançado, essas games foram nossos primeiros produtos, lançados para PC. Eles foram bem recebidos, dando a nós, dinheiro o bastante para apostar alto, compramos um prédio de obras abandonado e fizemos algumas reformas para transformá-lo na sede da Hitonomi, lá, continuamos fazendo games e lucrando, com mais dinheiro, contratamos mais funcionários, e começamos a produzir cada vez mais e ter cada vez mais lucro. Lançamos nossa primeira plataforma em 1993, o 8Station, primeiro vídeo-game doméstico a interagir com toques externos, ele foi um sucesso, e foi com essa tecnologia interativa que nós decolamos. Mas não houve muito lucro, pois precisávamos vender os vídeo games à preço de banana, com isso, conseguimos falir sua empresa e duas outras concorrentes, o que nos garantirá monopólio. O dinheiro que tenho para comprar sua empresa é tudo que a Hitonomi tem em valor líquido. Nós queremos algo que só vocês têm, as franquias exclusivas, embora esse seus jogos sejam bastante obsoletos, clássicos fazem bastante sucesso, e eu garanto que com tecnologia de ponta, esses jogos compensarão os nossos investimentos na DesuGames.
- Filha, você pode ser uma cobra traiçoeira que ataca o próprio pai, mas tenho que admitir que capacidade você tem, eu ficaria feliz, se não fosse pelo fato de eu ter perdido tudo que tinha.
- Relaxe pai, você vai ter um emprego na Hitonomi se quiser, você não tem capacidade comparável a minha, mas para um funcionário qualquer, será ótimo.
Sede da Hitonomi, Tóquio, Japão, 20/3/1998
- Senhora Desukoto, seu pai estará se casando novamente no dia 29, e está convidada.
- Pai, você me ligou apenas pra isso?
- Sim.
- Então cale a boca, não tenho tempo pra casamentos.
- Sim senhora, vou desligar.
Tóquio, Japão, 28/3/2002
- Senhora Desukoto, sua proposta é muito interessante, adorarei auxiliar a fazer tal jogo
- Fico feliz por isso, senhor Hitokaze, o senhor tem uma excelente fama na cena profissional, tendo sido o cabeça de vários projetos brilhantes, mas posso garantir que esse será o maior trabalho de sua vida.
- Informação sólida, um jogo que possa interagir com o mundo real, por mais difícil que isso possa ser, será tão gratificante e lucrativo, que valerá a pena.
- Primeiro faremos as regras, está certo?
- Sim, senhora Desukoto.
- Perfeito, depois faremos o banco de dados, e lembre-se de manter tudo em total sigilo, só você e mais alguns terão conhecimento do projeto S-Game.
- A senhora sabe que sou melhor na parte dos scripts, então deixe-me fazer as funções e efeitos iniciais.
- Claro, mas antes, façamos as regras.
- Claro, isso não será difícil.
Tóquio, Japão, 28/12/2006
- Filha, o nome disso é Demon’s Chess. – Satoshi Hitokaze mostrava um tabuleiro virtual para sua filha, na tela de seu notebook pessoal.
- Papai, o que é? – A menina tinha só 6 anos, ainda não entendia muito de informática, embora soubesse abrir um navegador e digitar.
- Um jogo que seu pai está criando, eu quero te ensinar, e quero que você me fale o que acha dele.
- Tá bem. – A pequenina concordou e prestou atenção no pai.
- O objetivo do jogo, é matar o Divine Being do oponente, para isso, você tem que usar peças, cada peça tem uma força, uma velocidade, um HP, um preço e um ponto inicial. O ponto inicial, são os locais onde uma peça pode ser colocada inicialmente, a força é o dano que ele pode causar em um ataque, HP é o número de dano que ele precisa tomar para ser eliminado do jogo, a velocidade é o número de casas que ele pode andar por vez, e o preço é o número de força necessário para se colocar a peça no tabuleiro, para isso, tem que se sacrificar uma peça com ponto inicial igual, e HP restante igual ou maior do que o preço da peça que se quer colocar.
- Parece um pouco complicado, continue explicando, pai. – A garota estava interessada no novo jogo, seu pai vivia lhe apresentando jogos novos, e ela adorava a maioria.
- Peças normais têm preço 0. O Divine Being é uma peça única que representa o jogador, ela também tem força, HP, mas se ela for morta, o jogo acaba. Se uma peça é destruída com mais dano do que o HP restante, a diferença é descontada do HP do Divine Being. O Divine Being não pode andar pelo tabuleiro, tem lugar um lugar fixo, não pode ser atacado se houver outras peças sobre seu controle e tem algum efeito enquanto estiver no tabuleiro.
- Realmente não é tão complicado.
- Não mesmo, mas continuando. Cada jogador pode formar legiões de até 50 peças, como o jogo é digital, as peças são sorteadas aleatoriamente no início do jogo, cada um pode ter 7 peças disponíveis no início do jogo, e pode obter uma nova por turno, sempre aleatoriamente, o local onde as peças disponíveis não usadas ficam é chamado de purgatório. Só pode se colocar uma peça no campo por turno, mas não há limites para o número de peças que podem ser mantidas no campo, movidas ou utilizadas para ataque. O tabuleiro é separado em dois lados iguais, cada um tem suas coordenadas de A1 até E10
- Mas só há peças desse tipo?
- Sim, mas as peças tem os mais diversos efeitos, desde dano ao Divine Being, até a capacidade de se trazer outra peça ao tabuleiro no mesmo turno, mas a maioria dos efeitos tem custos. Cada peça também tem uma classe, que são: Angel, god, demon, disease, animal, myth, human e thing.
- Acho que entendi tudo, vamos jogar, pai?
- Sim, Camilla, iremos jogar agora mesmo. – Satoshi configurou o programa do Demon’s Chess para jogo entre dois jogadores na mesma máquina, ambos usariam as mesmas combinações de peças nas suas legiões.
Satoshi começou colocando um “Saint Francisco” no campo, uma criatura com 90 de HP e 30 de força na casa A3 do seu lado do tabuleiro. Camilla trouxe “Judas, the Betrayer” para a A1, que poderia retirar uma peça como “Saint Francisco”, da classe Angel, do campo, e colocá-lo de volta no purgatório. Em dez turnos, Satoshi foi derrotado, o jogo foi disputado, mas Camilla teve a estratégia vencedora.
- Me venceu em meu próprio jogo, assim espero de uma filha minha. Mas então, gostou do jogo? – Satoshi ficou feliz por ter sido vencido por sua filha de 6 anos, a cada dia que passava, tinha mais certeza de que seu pequeno império de games de alta tecnologia estaria em boas mãos.
- Sim, o melhor jogo até hoje, eu ia gostar muito de jogar isso na escola com meus colegas. – Ela não sorria, apesar de bem feliz.
- Esse jogo que você jogou hoje é apenas uma prévia do que estar por vir, o “Demon’s Chess” será o primeiro jogo a causar efeitos físicos nos jogadores através de dados transportados pelo console.
- Pai, não posso levar isso pra me divertir no recreio?
- Não ainda, mas em uns 2 meses estará pronto e você poderá levar. Eu explicaria com detalhes, mas você é nova demais pra entender.
- Como o senhor quiser.
Tóquio, Japão, 2/4/2007
- Finalmente, estamos todos nós, acionistas principais da Hitonomi, reunidos para planejar o lançamento de nosso maior produto, o “Demon’s Head”, como todos nós estivemos envolvidos com a criação da plataforma portátil, é desnecessário dizer como funciona. Mas está claro que um vídeo-game que é colocado como um capacete ma cabeça do jogador, que mostra a ele tudo que ocorre no jogo como se fosse realidade, que afeta o cérebro do jogador com descargas elétricas para ele sentir cheiros e sensações de dor, que pode ser jogado online através de uma rede mundial de jogo sem fio, que pode descarregar peças novas através de downloads pela rede sem fio e que leva uma memória interna que guarda todas as peças e combinações de legiões já baixadas ou montadas, será um grande sucesso, e será uma febre entre crianças, adolescentes e adultos, que procurarão baixar novas peças à qualquer custo, e irão gastar rios de dinheiro conosco. – Myio Desukoto , de pé, segurava dois Demons’s Heads, um em cada mão, na sala de reunião da sede da Hitonomi
- Também é fato que gastamos muito dinheiro, trabalho e tempo nesse projeto, mas valeu a pena, afinal, seremos recompensados em dobro ou mais . – Satoshi se sentia emocionado com a conclusão do trabalho do grupo.
- Antes de qualquer coisa, vamos testar, pra isso eu preciso que dois de nós joguemos, eu preferiria que fosse Satoshi e eu, já que somos os mais apaixonados por games nesse local. – Desukoto colocou o capacete na cabeça.
- É uma honra para mim, vamos. – Satoshi pegou o outro capacete da mão de Desukoto, e colocou na própria cabeça. Apertou alguns botões e entrou na rede sem fio, Myio esperava por ele na sala de espera do jogo.
- Satoshi, acabei de te convidar para uma partida obrigatória. – Myio já estava com o jogo pronto para começar.
- Sim, só falta eu editar a minha legião. – Satoshi modificava as configurações padrão de legião no jogo, para adaptar as peças ao seu tipo de estratégia, embora não houvesse muitas opções,
- A minha já está pronta, e lembre-se dos efeitos físicos, quando você demora pra começar, você recebe alguns danos bastante incômodos, embora inofensivos. – Myio estava ansiosa para jogar.
- Pronto. – Satoshi disse após 2 minutos modificando a legião padrão que viria com o jogo, então começou a partida.
O jogo foi muito rápido, em três turnos, Desukoto derrotou Satoshi, usando as peças “ Seed of life”,” Weed in blossom” e “ Deméter”, que combinadas, consumiram com o HP de Hitokaze com facilidade.
Satoshi colocou “Samuel, the good man” na casa A3 no começo, Desukoto colocou seu “ Seed of Life”, que ao preço de 50 HP do Divine Being (total de 150), trouxe a peça “Weed in Blossom” do purgatório para o tabuleiro. O efeito da Weed in Blossom permitia que Desukoto eliminasse uma peça do próprio campo para causar dano em outra peça no jogo, igual à força da peça sacrificada, isso destruiu Samuel e permitiu que Weed in Blossom se aproximasse até a casa D3. Satoshi respondeu com “ Jonas”, que tinha 90 de HP e pôde andar até a C3 para atacar Weed in Blossom, que ficou com 10 de HP, Desukoto podia sentir o golpe de lança que sua criatura levou. Desukoto sacrificou Weed in Blossom e colocou “Deméter” no campo”, oferecendo mais 50 HP do Divine Being, deixou ela com 100 de força, fez que destruísse Jonas, Hitokaze também sentiu as flechas em seu corpo, mas não doía. Hitokaze colocou outro “Jonas” no jogo, ele atacou Deméter, deixando-a com 40 de HP. Desukoto terminou o jogo sacrificando Deméter para colocar “Halloween Tree” no campo, ele absorveu a força da Deméter sacrificada e também foi pago 40 pontos por Desukoto para deixá-la com 140 de poder, ela atacou Jonas que estava à sua frente, fazendo com que Myio vencesse o jogo, e que Satoshi sentisse seu corpo ser esmagado.
- Uau, essa sensação não pode ser descrita normalmente, foi horrivelmente desagradável, mas não doeu. – Satoshi tirou o capacete após perder, Myio fez o mesmo.
- O capacete é desligado após ser desconectado da cabeça do jogador, agora só falta lançarmos isso no mercado, já que as peças à venda na Internet já estão disponíveis e podem ser compradas através de CDs de recarga que já estão preparados para serem vendidos.
Tóquio, Japão, 16:00, 17/4/2008
- Hoje, nós tivemos o primeiro campeonato japonês de “Devil”s Chess”, e a grande vencedora foi ela: Camilla Hitokaze, que com apenas 8 anos, desbancou todos os oponentes com sua brilhante legião de seres das trevas, como prêmio ela receberá 10000 créditos para gastar, e o cd de inserção da peça raríssima, “Samael, the Fallen Angel”. O prêmio será entregue pela própria criadora do jogo, Myio Desukoto. Senhora Desukoto, é sua vez. – O narrador do primeiro campeonato japonês do Devil’s Chess era bastante animado, o jogo havia se tornado uma verdadeira febre no Japão, Estados Unidos e na Inglaterra, e vários torneios haviam sido organizados em cada país “infectado pela febre” para selecionar jogadores para o campeonato nacional, que Camilla, filha de Satoshi, venceu.
- Camilla Hitokaze, filha de meu grande sócio e amigo, Satoshi Hitokaze, você mostrou habilidade e estratégia nesse disputadíssimo campeonato, é com prazer que te entrego o cartão de 10000 créditos e Samael, the Fallen Angel, uma das minhas criações originais, e certamente a mais efetiva. Teria algumas palavras para nos dizer? – Myio entregou os prêmios diretamente na mão de Camilla, a premiação estava sendo filmada e transmitida ao vivo no canal TV Game, uma emissora fundada por Myio para divulgar jogos eletrônicos, de tabuleiro e etc, e que tinha uma audiência razoável.
- Na verdade eu tenho, quero agradecer ao meu pai que me ensinou a jogar, e à senhora que permitiu que esse jogo fantástico fosse lançado no mercado. – Camilla era louca por aquele jogo, embora não fosse uma pessoa alienada, amava as sensações indescritíveis que o Devil’s Head causava nas pessoas que jogavam.
- Como você é gentil, só podia mesmo ser filha do grande Satoshi. – Desukoto era muito simpática, animadora para todos no local.
Tóquio, Japão, 22:00 17/4/2008
- Irmã, me perdoe, me perdoe, por favor, eu tentei de tudo, mas ela estava usando peças raras que apenas o pai dela poderia fornecer, não foi minha culpa, foi culpa das peças raras que ela tinha. – O garoto tinha o rosto sujo de sangue.
- O banco de dados de peças é limitado e restrito, ninguém pode conseguir mais peças do que as que existem, e também não tem como uma pessoa da própria equipe comprar muitas peças, pois isso reduz o lucro da Hitonomi, e sei que Hitokaze não faria isso. Se você perdeu, é por que foi incapaz, você fez jogadas fracas e perdeu. – Myio chutava seu irmão no rosto, enquanto ele rastejava na sala da mansão.
- Por favor, irmã, não me mate. – Ele tentava rastejar para longe.
- Seto, eu não vou te matar, apenas te espancar até você ficar de cama por uma semana. Nosso pai te mandou pra cá depois que eu o despedi por incompetência, e você está sendo tão incompetente quanto ele. – Ela pisava na cabeça do garoto, como se fosse o corpo de um inimigo.
- Eu não erro de novo, eu prometo, por favor! – Seto estava desesperado, sabia que perder na final do campeonato de Devil’s Chess iria causar muitas dores quando chegasse em casa, mas ele não conseguiu evitar.
- Imbecil, é melhor que cumpra a promessa, senão cortarei a ponta de seus dedos. – Ela deu um chute forte na cabeça do irmão, que desmaiou.
Tóquio, Japão, 23/6/2008
- Então você é nossa cliente? – Um homem velho conversava, na sala da mansão de Myio Desukoto.
- Sim, sou eu. – Myio confirmou, com Seto e um outro menino do lado.
- Melhor mandar as crianças dormirem, isso é assunto para adultos. – O velho parecia um pouco desconfortável.
- Claro que seria, mas eu os ensino a viver, e nada deve ser escondido, afinal, assim eles aprenderão como se faz. Agora volte ao assunto e mostre o produto.
- Aqui está. – O homem abriu a mala, havia vários fios amarelos dentro dela.
- Estão funcionando? – Myio olhava interessada, mas sem perder a firmeza.
-Esses fios são perfeitos para a senhora, mas cadê meu dinheiro?
- Preciso testá-los, deixe-os aqui e amanhã eu te pago, se funcionarem.
- Nada disso, tô com cara de bobo?
- Eu disse: amanhã eu te pago. – Myio falou furiosa, apontava uma arma para o homem.
- Tudo bem, vou indo. – O homem deixou a mala e saiu correndo.
- Viram crianças? Nada que uma arma apontada para a cabeça não possa resolver.
Tóquio, Japão. 3/08/2010
- Como eles puderam? Eu juro, mãe, quem fez isso irá pagar. – Camilla chorava no enquanto levavam o caixão de seu pai para ser enterrado.
- Não tenho fé nisso, não há justiça no mundo em que vivemos, mesmo um monstro capaz de matar um gênio como ele não seria punido. – Gabryella não poderia estar pior.
- Cale a boca, mãe. Eu mesmo posso fazer justiça, meu pai me ensinou que nós devemos buscar o que desejamos à qualquer custo, e que se tivermos capacidade, podemos fazer praticamente qualquer coisa. Além disso, lá na delegacia, disseram que o criminoso só pode ser alguém da Hitonomi, alguém que não queria ele n
- Filha, o que pensa em fazer?
- Eu vou corrigir o que está errado.
10/08/2010
- Camilla, largue o notebook do seu pai, você está usando essa máquina 24 por dia, não é só por que estamos no fim de semana e você não tem dever ou trabalho, que você precisa ficar jogando o tempo todo.
- Não estou jogando, mãe. – Camilla digitava como uma profissional.
- Oras, ta fazendo o que, minha filha?
- Ganhando dinheiro, esse computador tinha a senha de todas as contas do papai, estou comprando ações de algumas empresas que têm futuro e terminando os jogos que meu pai fazia, antes que me pergunte onde aprendi a projetar jogos, de vez em quando papai me ensinava, normalmente quando a senhora estava ocupada demais dormindo.
- Está louca? Você vai acabar com o dinheiro que seu pai deixou.
- Cala boca, mãe, de ontem pra hoje eu já consegui dinheiro o bastante para nos sustentar pelo resto do mês. Mas sabe, mexendo aqui com o pregão online, descobri que algumas ações do meu pai sumiram e foram parar na conta de outros acionistas da Hitonomi.
- O que você quer dizer com isso?
- Mataram o papai para roubar ações dele, e tenho quase certeza, de que quem armou tudo foi Myio Desukoto, a acionista majoritária.
- Tem certeza disso, Camilla? Parece uma conclusão precipitada.
- Claro que tenho, presta atenção, meu pai já tava com 20 por cento das ações da Hitonomi, Myio com 40 e os outros com os 40 restantes . Aqui consta que Myio está com 55 por cento das ações, os outros cinco majoritários estão com 1 por cento a mais que antes, cada um. Isso faz sentido pra você?
- Não imagino como tenham feito isso, mas parece fazer sentido. Myio era amiga de seu pai, mas todos sabem que ela faliu a empresa do próprio pai e que o despediu anos depois.
- Sim, e uma mulher que ferra o próprio pai não teria problemas para ferrar um amigo. Eu irei atrás dela, e irei vingar o meu pai, e farei o mesmo com os outros.
- Não, Camilla, você não está pensando em matá-los? Você é uma criança, apenas uma criança.
- Cala boca, mãe, eu sou uma Hitokaze, e uma Hitokaze precisa garantir a própria sobrevivência, eles levaram meu pai, e eu não posso deixar que a morte dele fique de graça, ele não ia querer isso.
- Seu pai não era um grande exemplo de generosidade, mas era um grande exemplo de conquista, no passado, ele deixou muitos concorrentes desempregados. Mas mesmo assim, esqueça a história de matar, isso não é certo.
- Mãe, me diz o que acontece quando o fazendeiro vê o lobo próximo de suas ovelhas.
- Ele o espanta?
- Mas como ele espanta o lobo?
- Com uma arma?
- Sim mãe, mas ele deverá matar o lobo, por que senão, ele voltará depois, e ele nunca terá paz. E é assim que acontece, Desukoto é o lobo, e agora, eu sou o pastor, e preciso matá-la para proteger nosso patrimônio.
- Se você continuar insistindo nessa história de matar, eu irei te dar uma surra.
- Mãe, você não pode me impedir, se tentar isso, você será minha inimiga. Além do mais, eu posso garantir que você não fazer nada, só eu tenho a senha da conta conjunta do papai e sua, tava tudo salvo nesse Notebook aqui, e eu sei muito bem que você deixava tudo nas mãos dele, nem se dando ao trabalho de decorar a senha. – Camilla podia ter 11 anos, mas já sabia como chantagear.
- Eu tomo esse Notebook de você, garota mal-criada. – Gabryella tentou pegar o Notebook de Camilla, mas ela apontou um estilete para a mãe, que ficou com medo de chegar mais perto ou tentar tomar o objeto.
- Fica quieta, mãe, eu já tenho problemas o bastante, não quero precisar te machucar.
- Está certo filha. – Gabryella mentiu e tomou coragem para tomar o estilete da filha, e conseguiu, Camilla fechou o Notebook e saiu correndo, dando uma volta pela lateral da cama, sua mãe foi atrás, mas não era rápida o bastante. Camilla se jogou pelas escadas, pulando seis degraus por vez, sua mãe tentou fazer o mesmo, mas acabou caindo e rolando pelas escadas.
- Ai, filha, você vai matar sua pobre mãe. – Gabryella tentava se levantar, mas rolar pelas escadas não havia ajudado, Camilla voltou, pulou por cima da mãe e foi pro quarto, trancou a porta por dentro e ficou lá dentro.
Alguns minutos depois e Gabryella estava quase derrubando a porta do quarto da filha. Camilla acabou abrindo após muitos berros, deixando a mãe entrar, agitada como uma bêbada.
- Cadê o Notebook? – Ela estranhou não ter encontrado o Notebook no quarto da filha.
- Mamãe, eu não vou falar onde está o Notebook, mas vou logo avisando que já depositei todo o dinheiro da sua conta na minha poupança, que é claro, você também não sabe a senha. – Ela ria.
- Sua maluca, e como iremos ter dinheiro? – Gabryella gritava.
- Ora, eu vou lá no banco e saco quando precisarmos, mãe.
“ Ela caiu nessa? Eu não poderia colocar todos aqueles milhões na minha poupança de uma vez ”
- Então você espera sustentar essa casa? – Gabryella começava a desistir, não poderia vencer a filha.
- Claro, se você não me atrapalhar em meus planos, eu até poderei te sustentar sem cobrar nada em troca, eu só preciso do seu silêncio, que não me prejudique. – Camilla precisava convencer sua mãe.
- Parece que não tenho escolha, não é?
- Eu coloquei uma senha de 12 dígitos no Notebook, mesmo que você coloque as mãos nele, não poderá usá-lo, e é claro, eu tenho como desligá-lo à distância, garantindo que ninguém possa usá-lo sem minha permissão. Claro que não tirei como faço para desligá-lo, mas é bom que saiba. – A garota tinha vencido a discussão.
- Está certo, faça o quiser. – A mãe se sentiu o cocô do cavalo do bandido.
- Obrigada, mãe, não se arrependerá.
- Algo me diz que me arrependerei sim, mas não tenho absolutamente nenhuma opção.
- Não, você não tem. – A garota completou, gostava de deixar as coisas bem claras.
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